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I. Primeiras abordagens da liberdade
Uma resposta espontânea
25. A resposta espontânea à pergunta: « O que é ser livre?», é a
seguinte: é livre aquele que pode fazer unicamente o que quiser, sem ser
impedido por coação externa e que, por conseguinte, goza de plena
independência. O contrário da liberdade seria, assim, a dependência de nossa
vontade à uma vontade estranha.
Mas o homem sabe sempre o que quer? Pode tudo o que deseja? É conforme à
natureza do homem limitar-se ao próprio eu, separando-se da vontade de outrem?
Frequentemente, a vontade de um momento não é a vontade real. E no mesmo homem
podem coexistir vontades contraditórias. Mas, sobretudo, o homem defronta-se
com os limites da sua própria natureza: ele sempre quer mais do que pode. Dessa
forma, o obstáculo que se opõe ao seu querer nem sempre provém de fora, mas dos
limites do seu ser. Por isso, sob pena de se destruir, o homem deve aprender a
conciliar a sua vontade com a sua natureza.
Verdade e justiça, regras da liberdade
26. Além disso, cada homem é orientado para os outros homens e tem
necessidade da sua sociedade. Somente aprendendo á pôr de acordo a sua vontade
com a dos outros, em vista de um bem verdadeiro, ele fará o aprendizado da
retidão do querer. É, pois, a harmonia com as exigências da natureza humana que
torna humana a vontade. Com efeito, esta exige o critério da verdade e uma
relação justa com a vontade dos outros. Verdade e justiça são, assim, a medida
da verdadeira liberdade. Afastando-se desse fundamento, o homem, ao tomar-se
por Deus, cai na mentira e, ao invés de se realizar, destrói-se.
Longe de cumprir-se em uma total autonomia do eu e na ausência de
relações, a liberdade só existe verdadeiramente quando laços recíprocos,
regidos pela verdade e pela justiça, unem as pessoas. Mas para que tais laços
sejam possíveis, cada um, pessoalmente, deve ser verdadeiro.
A liberdade não é liberdade de fazer não importa o quê; ela é liberdade
para o Bem, o único em que reside a Felicidade. O Bem é também a sua
finalidade. Por conseguinte, o homem torna-se livre na medida em que tem acesso
ao conhecimento do verdadeiro e que este último conhecimento, e não qualquer
outra força, guie a sua vontade. A libertação em vista de um conhecimento da
verdade que – única – dirige a vontade é condição necessária para uma liberdade
digna desse nome.
II. Liberdade e libertação
Uma liberdade de criatura
27. Em outras palavras, a liberdade que é controle interno de seus
próprios atos e é auto-determinação, implica imediatamente uma relação com a
ordem ética. Ela encontra seu verdadeiro sentido na escolha do bem moral.
Manifesta-se, então, como um resgate em relação ao mal moral.
Por sua ação livre, o homem deve tender para o Bem supremo, através dos
bens conformes às exigências da sua natureza e de acordo com a sua vocação
divina.
Exercendo a sua liberdade, ele decide sobre si mesmo e se forma. Nesse
sentido, o homem é causa de si mesmo. Mas ele o é a título de
criatura e de imagem de Deus. Tal é a verdade do seu ser, que manifesta, por
contraste, o que têm de profundamente errôneo as teorias que creem exaltar a
liberdade do homem ou a sua « práxis histórica », fazendo dela o princípio
absoluto do seu ser e do seu devir. Essas teorias são expressões do ateísmo, ou
tendem ao ateísmo, por sua lógica própria. O indiferentismo e o agnosticismo
deliberado vão na mesma direção. É a imagem de Deus, no homem, que fundamenta a
liberdade e a dignidade da pessoa humana.
O apelo do Criador
28. Ao criar o homem livre, Deus imprimiu nele a sua imagem e
semelhança. O homem ouve o apelo do seu Criador, na inclinação e aspiração
da sua natureza para o Bem, e mais ainda na Palavra da Revelação, que foi
pronunciada de uma maneira perfeita em Cristo. Ele recebe, dessa forma, a
revelação de que Deus o criou livre, para que ele pudesse, por graça, entrar em
amizade com Ele e comungar de sua vida.
Uma liberdade participada
29. O homem não tem a sua origem na sua própria ação individual ou
coletiva, mas no dom de Deus que o criou. Tal é a primeira confissão da nossa
fé, que vem confirmar as mais elevadas intuições do pensamento humano.
A liberdade do homem é uma liberdade participada. Sua capacidade de se
realizar não é, de forma alguma, suprimida pela sua dependência de Deus. É
próprio do ateísmo, justamente, crer em uma posição irredutível entre a
causalidade de uma liberdade divina e a da liberdade do homem, como se a
afirmação de Deus significasse a negação do homem, ou como se a sua intervenção
na história tornasse vãs as tentativas deste último. Na realidade, é de Deus e
com relação a Ele, que a liberdade humana adquire sentido e consistência.
A opção livre do homem
30. A história do homem desenrola-se a partir da natureza que ele
recebeu de Deus, na livre realização dos fins para os quais o orientam e o
impelem as inclinações dessa natureza e da graça divina.
Mas a liberdade do homem é finita e falível. Seu desejo pode voltar-se
para um bem aparente: optando por um falso bem, ele falta à vocação da sua
liberdade. O homem, por seu livre arbítrio, dispõe de si mesmo, realizando,
dessa forma, a sua vocação régia de filho de Deus. « Pelo serviço de Deus, ele
reina ».18 A autêntica liberdade é « serviço da justiça »,
enquanto, ao contrário, a escolha da desobediência e do mal é « escravidão do
pecado ».19
Libertação temporal e liberdade
31. A partir dessa noção de liberdade, torna-se mais clara a
dimensão da noção de liberdade temporal: trata-se do conjunto dos processos
quem têm o objetivo de proporcionar e garantir as condições exigidas pelo
exercício de uma liberdade humana autêntica.
Portanto, não é a libertação que, por si mesma, produz a liberdade do
homem. O senso comum, confirmado pelo sentido cristão, sabe que, mesmo
submetida a condicionamentos, a liberdade nem por isso é completamente
destruída. Homens que sofrem terríveis coações conseguem manifestar a sua
liberdade e se movimentar pela própria libertação. Um processo de libertação
que atingir o seu termo pode apenas criar condições melhores para o exercício
efetivo da liberdade. Da mesma forma, uma libertação que não levar em
consideração a liberdade pessoal daqueles que por ela combatem, está de antemão
condenada ao fracasso.
III. A liberdade e a sociedade humana
Os Direitos do Homem e as «liberdades»
32. Deus não criou o homem como um «ser solitário », mas o quis « ser
social ». A vida social, portanto, não é algo de exterior ao homem: este
não pode crescer e realizar a sua vocação senão em relação com os outros. O
homem pertence a diversas comunidades, familiar, profissional, política, e é no
seio destas que deve exercer a sua liberdade responsável. Uma ordem social
justa oferece ao homem uma ajuda insubstituível para a realização da sua
personalidade livre. Ao contrário, uma ordem social injusta é uma ameaça e um
obstáculo que podem comprometer o seu destino.
Na esfera social, a liberdade se exprime e se realiza em ações,
estruturas e instituições, graças às quais os homens comunicam-se entre si e
organizam a sua vida comum. O desenvolvimento de uma personalidade livre, que é
um direito e um dever de todos, deve ser ajudado e não obstaculizado pela
sociedade.
Trata-se de uma exigência de natureza moral, que encontrou a sua
expressão na formulação dos Direitos do Homem. Entre eles, alguns
têm por objeto o que se convencionou chamar « as liberdades »,
isto é, maneiras de se reconhecer a cada ser humano o seu caráter de pessoa
responsável por ela mesma e por seu destino transcendente, como também de
reconhecer a inviolabilidade da sua consciência.
Dimensões sociais do homem e glória de Deus
33. A dimensão social do ser humano assume ainda uma outra
significação: somente a pluralidade e a rica diversidade dos homens podem
exprimir algo da riqueza infinita de Deus.
Enfim, essa dimensão é chamada a encontrar a sua realização no Corpo de
Cristo, que é a Igreja. Por isso, a vida social, na variedade das suas formas e
na medida em que é conforme à lei divina, constitui um reflexo da glória de
Deus no mundo.
IV. Liberdade do homem e domínio da
natureza
Vocação do homem: «dominar» a natureza
34. Juntamente com a sua dimensão corporal, o homem tem necessidade
dos recursos do mundo material para a sua realização pessoal e social. Nesta
vocação de dominar a terra, submetendo-a ao seu serviço pelo trabalho, pode-se
reconhecer um traço da imagem de Deus. Mas a intervenção humana não é «
criadora »; ela depara-se com uma natureza material que, como ela, tem a sua
origem em Deus Criador e da qual o homem foi constituído « nobre e sábio
guardião ».
O homem, senhor de suas atividades
35. As transformações técnicas e econômicas repercutem sobre a
organização da vida social; elas não deixam de influir, em uma certa medida,
sobre a vida cultural e sobre a própria vida religiosa.
No entanto, por sua liberdade, o homem permanece senhor de sua
atividade. As grandes e rápidas transformações da época contemporânea
apresentam-lhe um dramático desafio: o do domínio e controle, mediante a razão
e a liberdade, sobre as forças que ele desencadeia ao serviço das verdadeiras
finalidades humanas.
Descobertas científicas e progresso moral
36, Compete, pois, à liberdade bem orientada fazer com que as conquistas
científicas e técnicas, a procura de sua eficácia, os produtos do trabalho e as
próprias estruturas da organização econômica e social, não sejam submetidos a
projetos que os privem de suas finalidades humanas, fazendo-os voltarem-se
contra o próprio homem.
A atividade científica e a atividade técnica comportam, cada uma,
exigências específicas. Entretanto, elas só alcançam o seu significado e o seu
valor propriamente humanos, quando subordinadas aos valores morais. Essas
exigências devem ser respeitadas; mas querer atribuir-lhes uma autonomia
absoluta e obrigatória, não conforme à natureza das coisas, é entrar em um
caminho que leva à ruína a autêntica liberdade do homem.
V. O pecado, fonte de divisão e de
opressão
O pecado separação de Deus
37. Deus chama o homem para a liberdade. Em cada homem é viva a
vontade de ser livre. E, no entanto, tal vontade quase sempre leva à escravidão
e à opressão. Qualquer empenho pela libertação e pela liberdade supõe, pois,
que se tenha enfrentado esse dramático paradoxo.
O pecado do homem, isto é, a sua ruptura com Deus, é a razão radical das
tragédias que marcam a história da liberdade. Para compreendê-lo, muitos de
nossos contemporâneos deverão, primeiramente, redescobrir o sentido do pecado.
No anseio de liberdade do homem esconde-se a tentação de renegar a sua
própria natureza. Na medida em que deseja tudo querer e tudo poder,
esquecendo-se, assim, de que é finito e criado, ele pretende ser um deus. «
Sereis como Deus » (Gn 3, 5). Essa palavra da serpente manifesta a
essência da tentação do homem; ela comporta a perversão do sentido da sua
própria liberdade. Tal é a natureza profunda do pecado: o homem separa-se da
verdade, impondo-lhe a sua vontade. Querendo libertar-se de Deus e ser, ele
mesmo, um deus, engana-se e se destrói. Aliena-se de si mesmo.
Neste querer ser deus e tudo submeter a seu prazer pessoal esconde-se
uma perversão da ideia mesma de Deus. Deus é amor e verdade na plenitude do dom
recíproco das Pessoas divinas. O homem é chamado a ser como Deus, é verdade.
Entretanto, ele se torna semelhante a Deus não no arbitrário do seu querer, mas
na medida em que reconhece a verdade e o amor como o princípio e a finalidade da
sua liberdade.
O pecado, raiz das alienações humanas
38. Ao pecar, o homem mente a si mesmo e separa-se da sua verdade.
Buscando a total autonomia e a auto-suficiência, ele nega Deus e nega-se a si
mesmo. A alienação com relação à verdade do seu ser de criatura amada por Deus
é a raiz de todas as outras alienações.
Negando, ou tentando negar Deus, seu Princípio e seu Fim, o homem altera
profundamente a sua ordem e o seu equilíbrio interior, os da sociedade e até
mesmo os da criação visível. É em conexão com o pecado que a
Escritura considera o conjunto das calamidades que oprimem o homem em seu ser
individual e social.
Ela mostra como todo o curso da história mantém uma ligação misteriosa
como agir do homem que, desde a origem, abusou da sua liberdade erguendo-se
contra Deus e procurando alcançar os seus fins fora d’Ele. No caráter
penoso do trabalho e da maternidade, no domínio do homem sobre a mulher e na
morte, o livro do Genesis indica as consequências do pecado original. Os homens
privados da graça divina herdaram, dessa forma, uma natureza comum mortal,
incapaz de se fixar no bem, e inclinada à cobiça.
Idolatria e desordem
39. A idolatria é uma forma extrema da desordem gerada pelo pecado. A
substituição da adoração do Deus vivo pelo culto da criatura falseia as
relações entre os homens e arrasta consigo diversas formas de opressão.
O desconhecimento culpável de Deus desencadeia as paixões, causas de
desequilíbrio e de conflitos no íntimo do homem. Daí derivam inevitavelmente as
desordens que afetam a esfera familiar e social: licenciosidade sexual,
injustiça, homicídio. É assim que São Paulo descreve o mundo pagão, levado pela
idolatria às piores aberrações que arruínam o indivíduo e a sociedade.
Já antes dele, os Profetas e os Sábios de Israel viam nas desgraças do
povo um castigo do seu pecado de idolatria, e no « coração cheio de maldade » (Ec 9,
3), a fonte da radical escravidão do homem e das opressões que ele inflige
aos seus semelhantes.
Desprezar Deus e voltar-se para as criaturas
40. A tradição cristã, nos Padres e Doutores da Igreja explicitou esta
doutrina da Escritura acerca do pecado. Para ela, o pecado e desprezo de Deus (contemptus
Dei). Ele comporta a vontade de fugir da relação de dependência
do servidor para com seu senhor ou, mais ainda, do filho para com seu Pai.
Pecando, o homem pretende livrar-se de Deus. Na realidade, ele torna-se
escravo. Pois, ao recusar Deus, quebra o impulso da sua aspiração ao infinito e
da sua vocação à participação da vida divina. É por isso que seu coração fica
entregue à inquietação.
O homem pecador que recusa de aderir a Deus, é conduzido,
necessariamente, a se ligar à criatura, de um modo falacioso e destruidor.
Neste voltar-se para a criatura (conversio ad creaturam), ele
concentra sobre essa o seu insatisfeito desejo de infinito. Mas os bens criados
são limitados; por isso mesmo, seu coração corre de um para outro, sempre em
busca de uma paz impossível.
Na realidade, quando atribui às criaturas um peso de infinitude, o homem
perde o sentido do seu ser criado. Ele pretende encontrar o seu centro e a sua
unidade em si mesmo. O amor desordenado de si é a outra face do desprezo de
Deus. O homem pretende, então, apoiar-se em si mesmo somente; ele quer
realizar-se a si mesmo, bastando-se na sua própria imanência.
O ateísmo falsa emancipação da liberdade
41. Isto torna-se mais particularmente manifesto quando o pecador julga
só poder afirmar a sua liberdade própria, quando explicitamente negar Deus. A dependência
da criatura para com o Criador ou a da consciência moral com relação à lei
divina seriam, para ele, intoleráveis servidões. O ateísmo é, pois, aos seus
olhos, a verdadeira forma de emancipação e de libertação do homem, enquanto a
religião ou mesmo o reconhecimento de uma lei moral seriam alienações. O homem
quer, então, decidir soberanamente acerca do bem e do mal, ou acerca dos
valores, e, com um mesmo movimento, rejeita ao mesmo tempo a ideia de Deus e a
ideia de pecado. É através da audácia da transgressão que ele pretende
tornar-se adulto e livre. Ele reivindica tal emancipação não apenas para si,
mas para a humanidade inteira.
Pecado e estruturas de injustiça
42. Tornando-se seu próprio centro, o homem pecador tende a se afirmar e
a satisfazer seu desejo de infinito, servindo-se das coisas: riquezas, poderes
e prazeres, em menosprezo dos outros homens que ele despoja injustamente e
trata como objetos ou instrumentos. Assim, contribui, por sua parte, para a
criação daquelas estruturas de exploração e de servidão que, por outro lado,
ele pretende denunciar.
I. Primeiras abordagens da liberdade
Uma resposta espontânea
25. A resposta espontânea à pergunta: « O que é ser livre?», é a
seguinte: é livre aquele que pode fazer unicamente o que quiser, sem ser
impedido por coação externa e que, por conseguinte, goza de plena
independência. O contrário da liberdade seria, assim, a dependência de nossa
vontade à uma vontade estranha.
Mas o homem sabe sempre o que quer? Pode tudo o que deseja? É conforme à
natureza do homem limitar-se ao próprio eu, separando-se da vontade de outrem?
Frequentemente, a vontade de um momento não é a vontade real. E no mesmo homem
podem coexistir vontades contraditórias. Mas, sobretudo, o homem defronta-se
com os limites da sua própria natureza: ele sempre quer mais do que pode. Dessa
forma, o obstáculo que se opõe ao seu querer nem sempre provém de fora, mas dos
limites do seu ser. Por isso, sob pena de se destruir, o homem deve aprender a
conciliar a sua vontade com a sua natureza.
Verdade e justiça, regras da liberdade
26. Além disso, cada homem é orientado para os outros homens e tem
necessidade da sua sociedade. Somente aprendendo á pôr de acordo a sua vontade
com a dos outros, em vista de um bem verdadeiro, ele fará o aprendizado da
retidão do querer. É, pois, a harmonia com as exigências da natureza humana que
torna humana a vontade. Com efeito, esta exige o critério da verdade e uma
relação justa com a vontade dos outros. Verdade e justiça são, assim, a medida
da verdadeira liberdade. Afastando-se desse fundamento, o homem, ao tomar-se
por Deus, cai na mentira e, ao invés de se realizar, destrói-se.
Longe de cumprir-se em uma total autonomia do eu e na ausência de
relações, a liberdade só existe verdadeiramente quando laços recíprocos,
regidos pela verdade e pela justiça, unem as pessoas. Mas para que tais laços
sejam possíveis, cada um, pessoalmente, deve ser verdadeiro.
A liberdade não é liberdade de fazer não importa o quê; ela é liberdade
para o Bem, o único em que reside a Felicidade. O Bem é também a sua
finalidade. Por conseguinte, o homem torna-se livre na medida em que tem acesso
ao conhecimento do verdadeiro e que este último conhecimento, e não qualquer
outra força, guie a sua vontade. A libertação em vista de um conhecimento da
verdade que – única – dirige a vontade é condição necessária para uma liberdade
digna desse nome.
II. Liberdade e libertação
Uma liberdade de criatura
27. Em outras palavras, a liberdade que é controle interno de seus
próprios atos e é auto-determinação, implica imediatamente uma relação com a
ordem ética. Ela encontra seu verdadeiro sentido na escolha do bem moral.
Manifesta-se, então, como um resgate em relação ao mal moral.
Por sua ação livre, o homem deve tender para o Bem supremo, através dos
bens conformes às exigências da sua natureza e de acordo com a sua vocação
divina.
Exercendo a sua liberdade, ele decide sobre si mesmo e se forma. Nesse
sentido, o homem é causa de si mesmo. Mas ele o é a título de
criatura e de imagem de Deus. Tal é a verdade do seu ser, que manifesta, por
contraste, o que têm de profundamente errôneo as teorias que creem exaltar a
liberdade do homem ou a sua « práxis histórica », fazendo dela o princípio
absoluto do seu ser e do seu devir. Essas teorias são expressões do ateísmo, ou
tendem ao ateísmo, por sua lógica própria. O indiferentismo e o agnosticismo
deliberado vão na mesma direção. É a imagem de Deus, no homem, que fundamenta a
liberdade e a dignidade da pessoa humana.
O apelo do Criador
28. Ao criar o homem livre, Deus imprimiu nele a sua imagem e
semelhança. O homem ouve o apelo do seu Criador, na inclinação e aspiração
da sua natureza para o Bem, e mais ainda na Palavra da Revelação, que foi
pronunciada de uma maneira perfeita em Cristo. Ele recebe, dessa forma, a
revelação de que Deus o criou livre, para que ele pudesse, por graça, entrar em
amizade com Ele e comungar de sua vida.
Uma liberdade participada
29. O homem não tem a sua origem na sua própria ação individual ou
coletiva, mas no dom de Deus que o criou. Tal é a primeira confissão da nossa
fé, que vem confirmar as mais elevadas intuições do pensamento humano.
A liberdade do homem é uma liberdade participada. Sua capacidade de se
realizar não é, de forma alguma, suprimida pela sua dependência de Deus. É
próprio do ateísmo, justamente, crer em uma posição irredutível entre a
causalidade de uma liberdade divina e a da liberdade do homem, como se a
afirmação de Deus significasse a negação do homem, ou como se a sua intervenção
na história tornasse vãs as tentativas deste último. Na realidade, é de Deus e
com relação a Ele, que a liberdade humana adquire sentido e consistência.
A opção livre do homem
30. A história do homem desenrola-se a partir da natureza que ele
recebeu de Deus, na livre realização dos fins para os quais o orientam e o
impelem as inclinações dessa natureza e da graça divina.
Mas a liberdade do homem é finita e falível. Seu desejo pode voltar-se
para um bem aparente: optando por um falso bem, ele falta à vocação da sua
liberdade. O homem, por seu livre arbítrio, dispõe de si mesmo, realizando,
dessa forma, a sua vocação régia de filho de Deus. « Pelo serviço de Deus, ele
reina ».18 A autêntica liberdade é « serviço da justiça »,
enquanto, ao contrário, a escolha da desobediência e do mal é « escravidão do
pecado ».19
Libertação temporal e liberdade
31. A partir dessa noção de liberdade, torna-se mais clara a
dimensão da noção de liberdade temporal: trata-se do conjunto dos processos
quem têm o objetivo de proporcionar e garantir as condições exigidas pelo
exercício de uma liberdade humana autêntica.
Portanto, não é a libertação que, por si mesma, produz a liberdade do
homem. O senso comum, confirmado pelo sentido cristão, sabe que, mesmo
submetida a condicionamentos, a liberdade nem por isso é completamente
destruída. Homens que sofrem terríveis coações conseguem manifestar a sua
liberdade e se movimentar pela própria libertação. Um processo de libertação
que atingir o seu termo pode apenas criar condições melhores para o exercício
efetivo da liberdade. Da mesma forma, uma libertação que não levar em
consideração a liberdade pessoal daqueles que por ela combatem, está de antemão
condenada ao fracasso.
III. A liberdade e a sociedade humana
Os Direitos do Homem e as «liberdades»
32. Deus não criou o homem como um «ser solitário », mas o quis « ser
social ». A vida social, portanto, não é algo de exterior ao homem: este
não pode crescer e realizar a sua vocação senão em relação com os outros. O
homem pertence a diversas comunidades, familiar, profissional, política, e é no
seio destas que deve exercer a sua liberdade responsável. Uma ordem social
justa oferece ao homem uma ajuda insubstituível para a realização da sua
personalidade livre. Ao contrário, uma ordem social injusta é uma ameaça e um
obstáculo que podem comprometer o seu destino.
Na esfera social, a liberdade se exprime e se realiza em ações,
estruturas e instituições, graças às quais os homens comunicam-se entre si e
organizam a sua vida comum. O desenvolvimento de uma personalidade livre, que é
um direito e um dever de todos, deve ser ajudado e não obstaculizado pela
sociedade.
Trata-se de uma exigência de natureza moral, que encontrou a sua
expressão na formulação dos Direitos do Homem. Entre eles, alguns
têm por objeto o que se convencionou chamar « as liberdades »,
isto é, maneiras de se reconhecer a cada ser humano o seu caráter de pessoa
responsável por ela mesma e por seu destino transcendente, como também de
reconhecer a inviolabilidade da sua consciência.
Dimensões sociais do homem e glória de Deus
33. A dimensão social do ser humano assume ainda uma outra
significação: somente a pluralidade e a rica diversidade dos homens podem
exprimir algo da riqueza infinita de Deus.
Enfim, essa dimensão é chamada a encontrar a sua realização no Corpo de
Cristo, que é a Igreja. Por isso, a vida social, na variedade das suas formas e
na medida em que é conforme à lei divina, constitui um reflexo da glória de
Deus no mundo.
IV. Liberdade do homem e domínio da
natureza
Vocação do homem: «dominar» a natureza
34. Juntamente com a sua dimensão corporal, o homem tem necessidade
dos recursos do mundo material para a sua realização pessoal e social. Nesta
vocação de dominar a terra, submetendo-a ao seu serviço pelo trabalho, pode-se
reconhecer um traço da imagem de Deus. Mas a intervenção humana não é «
criadora »; ela depara-se com uma natureza material que, como ela, tem a sua
origem em Deus Criador e da qual o homem foi constituído « nobre e sábio
guardião ».
O homem, senhor de suas atividades
35. As transformações técnicas e econômicas repercutem sobre a
organização da vida social; elas não deixam de influir, em uma certa medida,
sobre a vida cultural e sobre a própria vida religiosa.
No entanto, por sua liberdade, o homem permanece senhor de sua
atividade. As grandes e rápidas transformações da época contemporânea
apresentam-lhe um dramático desafio: o do domínio e controle, mediante a razão
e a liberdade, sobre as forças que ele desencadeia ao serviço das verdadeiras
finalidades humanas.
Descobertas científicas e progresso moral
36, Compete, pois, à liberdade bem orientada fazer com que as conquistas
científicas e técnicas, a procura de sua eficácia, os produtos do trabalho e as
próprias estruturas da organização econômica e social, não sejam submetidos a
projetos que os privem de suas finalidades humanas, fazendo-os voltarem-se
contra o próprio homem.
A atividade científica e a atividade técnica comportam, cada uma,
exigências específicas. Entretanto, elas só alcançam o seu significado e o seu
valor propriamente humanos, quando subordinadas aos valores morais. Essas
exigências devem ser respeitadas; mas querer atribuir-lhes uma autonomia
absoluta e obrigatória, não conforme à natureza das coisas, é entrar em um
caminho que leva à ruína a autêntica liberdade do homem.
V. O pecado, fonte de divisão e de
opressão
O pecado separação de Deus
37. Deus chama o homem para a liberdade. Em cada homem é viva a
vontade de ser livre. E, no entanto, tal vontade quase sempre leva à escravidão
e à opressão. Qualquer empenho pela libertação e pela liberdade supõe, pois,
que se tenha enfrentado esse dramático paradoxo.
O pecado do homem, isto é, a sua ruptura com Deus, é a razão radical das
tragédias que marcam a história da liberdade. Para compreendê-lo, muitos de
nossos contemporâneos deverão, primeiramente, redescobrir o sentido do pecado.
No anseio de liberdade do homem esconde-se a tentação de renegar a sua
própria natureza. Na medida em que deseja tudo querer e tudo poder,
esquecendo-se, assim, de que é finito e criado, ele pretende ser um deus. «
Sereis como Deus » (Gn 3, 5). Essa palavra da serpente manifesta a
essência da tentação do homem; ela comporta a perversão do sentido da sua
própria liberdade. Tal é a natureza profunda do pecado: o homem separa-se da
verdade, impondo-lhe a sua vontade. Querendo libertar-se de Deus e ser, ele
mesmo, um deus, engana-se e se destrói. Aliena-se de si mesmo.
Neste querer ser deus e tudo submeter a seu prazer pessoal esconde-se
uma perversão da ideia mesma de Deus. Deus é amor e verdade na plenitude do dom
recíproco das Pessoas divinas. O homem é chamado a ser como Deus, é verdade.
Entretanto, ele se torna semelhante a Deus não no arbitrário do seu querer, mas
na medida em que reconhece a verdade e o amor como o princípio e a finalidade da
sua liberdade.
O pecado, raiz das alienações humanas
38. Ao pecar, o homem mente a si mesmo e separa-se da sua verdade.
Buscando a total autonomia e a auto-suficiência, ele nega Deus e nega-se a si
mesmo. A alienação com relação à verdade do seu ser de criatura amada por Deus
é a raiz de todas as outras alienações.
Negando, ou tentando negar Deus, seu Princípio e seu Fim, o homem altera
profundamente a sua ordem e o seu equilíbrio interior, os da sociedade e até
mesmo os da criação visível. É em conexão com o pecado que a
Escritura considera o conjunto das calamidades que oprimem o homem em seu ser
individual e social.
Ela mostra como todo o curso da história mantém uma ligação misteriosa
como agir do homem que, desde a origem, abusou da sua liberdade erguendo-se
contra Deus e procurando alcançar os seus fins fora d’Ele. No caráter
penoso do trabalho e da maternidade, no domínio do homem sobre a mulher e na
morte, o livro do Genesis indica as consequências do pecado original. Os homens
privados da graça divina herdaram, dessa forma, uma natureza comum mortal,
incapaz de se fixar no bem, e inclinada à cobiça.
Idolatria e desordem
39. A idolatria é uma forma extrema da desordem gerada pelo pecado. A
substituição da adoração do Deus vivo pelo culto da criatura falseia as
relações entre os homens e arrasta consigo diversas formas de opressão.
O desconhecimento culpável de Deus desencadeia as paixões, causas de
desequilíbrio e de conflitos no íntimo do homem. Daí derivam inevitavelmente as
desordens que afetam a esfera familiar e social: licenciosidade sexual,
injustiça, homicídio. É assim que São Paulo descreve o mundo pagão, levado pela
idolatria às piores aberrações que arruínam o indivíduo e a sociedade.
Já antes dele, os Profetas e os Sábios de Israel viam nas desgraças do
povo um castigo do seu pecado de idolatria, e no « coração cheio de maldade » (Ec 9,
3), a fonte da radical escravidão do homem e das opressões que ele inflige
aos seus semelhantes.
Desprezar Deus e voltar-se para as criaturas
40. A tradição cristã, nos Padres e Doutores da Igreja explicitou esta
doutrina da Escritura acerca do pecado. Para ela, o pecado e desprezo de Deus (contemptus
Dei). Ele comporta a vontade de fugir da relação de dependência
do servidor para com seu senhor ou, mais ainda, do filho para com seu Pai.
Pecando, o homem pretende livrar-se de Deus. Na realidade, ele torna-se
escravo. Pois, ao recusar Deus, quebra o impulso da sua aspiração ao infinito e
da sua vocação à participação da vida divina. É por isso que seu coração fica
entregue à inquietação.
O homem pecador que recusa de aderir a Deus, é conduzido,
necessariamente, a se ligar à criatura, de um modo falacioso e destruidor.
Neste voltar-se para a criatura (conversio ad creaturam), ele
concentra sobre essa o seu insatisfeito desejo de infinito. Mas os bens criados
são limitados; por isso mesmo, seu coração corre de um para outro, sempre em
busca de uma paz impossível.
Na realidade, quando atribui às criaturas um peso de infinitude, o homem
perde o sentido do seu ser criado. Ele pretende encontrar o seu centro e a sua
unidade em si mesmo. O amor desordenado de si é a outra face do desprezo de
Deus. O homem pretende, então, apoiar-se em si mesmo somente; ele quer
realizar-se a si mesmo, bastando-se na sua própria imanência.
O ateísmo falsa emancipação da liberdade
41. Isto torna-se mais particularmente manifesto quando o pecador julga
só poder afirmar a sua liberdade própria, quando explicitamente negar Deus. A dependência
da criatura para com o Criador ou a da consciência moral com relação à lei
divina seriam, para ele, intoleráveis servidões. O ateísmo é, pois, aos seus
olhos, a verdadeira forma de emancipação e de libertação do homem, enquanto a
religião ou mesmo o reconhecimento de uma lei moral seriam alienações. O homem
quer, então, decidir soberanamente acerca do bem e do mal, ou acerca dos
valores, e, com um mesmo movimento, rejeita ao mesmo tempo a ideia de Deus e a
ideia de pecado. É através da audácia da transgressão que ele pretende
tornar-se adulto e livre. Ele reivindica tal emancipação não apenas para si,
mas para a humanidade inteira.
Pecado e estruturas de injustiça
42. Tornando-se seu próprio centro, o homem pecador tende a se afirmar e
a satisfazer seu desejo de infinito, servindo-se das coisas: riquezas, poderes
e prazeres, em menosprezo dos outros homens que ele despoja injustamente e
trata como objetos ou instrumentos. Assim, contribui, por sua parte, para a
criação daquelas estruturas de exploração e de servidão que, por outro lado,
ele pretende denunciar.
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